Ciência da Computação é uma profissão em estado terminal?

A pergunta acima foi formulada pelo vice-presidente de pesquisas da Microsoft, Rick Rashid, em um paper publicado no mês de Julho de 2008. No texto original, Rashid mostra o resultado de uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia (UCLA), apontando um claro declínio na escolha da profissão de ciência da computação pelos alunos novatos. No início da década de 80, 5% dos novatos da UCLA escolhiam se formar em Computer Science. Hoje, esse número raramente alcança 1% dos novos alunos. A partir desses dados, Rashid buscou entender o que está afugentando os alunos dessa área, realizando uma pesquisa em várias escolas de 2o grau e universidades nos Estados Unidos. Os resultados da pesquisa estão listados abaixo:

  • Boa parte dos alunos considera a ciência da computação uma profissão solitária; ou seja, se imaginam virando noites sozinhos na frente de um computador corrigindo bugs e se alimentando de pizzas, refrigerantes e salgadinhos (traduzindo: sem vida social);
  • A profissão é identificada como um trabalho “tipicamente masculino” (Rashid mostra que 80% das mulheres pesquisadas consideram a profissão simplesmente “sem graça”);
  • A percepção dos entrevistados é que a profissão se restringe apenas a escrever código e depurá-lo;
  • Por último, a maioria dos alunos ouviram de algum parente ou professor que a profissão é muito instável, com um nível muito alto de terceirização e turnover nas empresas.

Rashid rebate esses argumentos mostrando as diversas faces que a profissão assume e os papéis que um profissional da área representa junto à sociedade. Os números mostram que apesar da aparente falta de interesse pela profissão, nunca se precisou tanto de profissionais na área de tecnologia da informação como agora. Até 2014, serão mais de 100.000 oportunidades de trabalho criadas anualmente nos Estados Unidos, para aproximadamente 12.500 profissionais formados pelas universidades de lá. Boa parte dessas vagas serão preenchidas por profissionais de outros países (o Brasil incluído nesse bolo), mas a situação parece caminhar para uma grave crise de capital humano. Rashid conclui o trabalho apontando várias propostas para aumentar a atratividade da área e retenção dos atuais alunos. A coisa passa basicamente por mostrar o impacto da profissão na sociedade, a possibilidade de resolver problemas complexos, o caráter inovador da profissão, o fato dos salários estarem aumentando por lá (repito: por lá), e por fim, a paixão pela profissão.

E aqui no Brasil? Um post de Eduardo Almeida no blog World of Reuse levantou a bola para o problema dentro do contexto de nosso país. Ampliando um pouco o debate, tenho visto nos últimos anos o mesmo movimento relatado por Rashid nas faculdades onde leciono. Tipicamente, as turmas dos primeiros períodos começam com 60, 70 alunos, mas raramente chegam no final do curso com mais de 20, 25 pessoas matriculadas. A quantidade de mulheres matriculadas também é mínima (tenho uma aluna em um grupo de dezessete no 8o período de um curso onde ensino). Como nos Estados Unidos, também não falta emprego para os profissionais de TI no Brasil (você duvida? basta olhar as 1.500 oportunidades em aberto da IBM, as 400 da CPM/Braxis, e por aí vai). Parte de meus alunos me relatam que tinham outra visão da profissão e não imaginavam o quanto era difícil chegar no final do curso.

A minha opinião para o problema é que a profissão não está morrendo. Estamos passando pela mesma crise que a Engenharia Civil enfrentou nos anos 90 (apesar de razões diferentes), com poucos alunos entrando nos cursos e menos ainda se formando. A própria demanda do mercado irá aumentar naturalmente os salários e atrair mais profissionais para área (por que você acha que dezenas de milhares de pessoas estudam Direito hoje?).

Qual a sua opinião sobre esse assunto? Comentários são bem-vindos.